domingo

Tiririca, Vossa Excelência

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Daniel das Neves

(*Publicado no Le Monde Diplomatique)

O palhaço
É só um homem amargurado
Que pinta a cara
Para esconder a tristeza.
O poeta é um palhaço.

O que há de mais escandaloso na polêmica envolvendo Tiririca não é o fato de um cidadão ser eleito sob suspeita de ser analfabeto. A tragédia que nos diminui e envergonha como nação é a existência de analfabetos. Há 14 milhões de brasileiros nessa condição. No Três de Outubro, numa seção de justificativa para a abstenção de votos, depois de preenchida a ficha pelo mesário, um garoto de 18 anos de idade sacou um papel amarrotado do bolso. Era o seu nome, escrito a lápis. Não sabendo escrever, desenhou letra por letra – conforme o original – no espaço reservado para a assinatura.

Na seqüência, outros três jovens repetiram o procedimento. O mais velho tinha 22. Apenas. Ambos saíram da Bahia e justificavam a ausência em São Paulo, ex-Terra das Oportunidades. Na mesma mesa, uma dezena de pessoas passou pelo constrangimento de ter que rubricar o formulário com a marca da digital. É contra essa realidade que as vozes do inconformismo devem se articular.

O Brasil é uma democracia representativa e Tiririca tem o apoio de, pelo menos, 1.353.820 brasileiros. Se comprovado que o deputado federal eleito com o maior número de votos não estava habilitado para disputar um cargo eletivo, também ficará provado que a Justiça Eleitoral não está habilitada para conduzir o processo. Aliás, estamos diante de um paradoxo constitucional? O voto de um analfabeto é muito bem-vindo. O mandato é inadmissível. Cassa-se preventivamente os direitos políticos de quem não teve respeitado o direito de freqüentar escola.

O eleitorado de Tiririca foi subestimado. Chamada de protesto burro, a opção por um artista notável poderia ajudar a recolocar em cena políticos em descrédito. Seu correligionário Waldemar Costa Neto (PR) seria um dos beneficiários, mas não foi preciso. Os votos inteligentes foram suficientes para lhe garantir mais um mandato na Câmara Federal. No mais, se a distribuição de votos pelo quociente eleitoral ajuda a equilibrar a correlação de forças no Legislativo, não há razões para se rechaçar os contemplados. Caso contrário, evoquemos uma Reforma Política!

A reação contra Tiririca nos remete a um passado não muito distante, que revela certa incoerência da opinião pública. A escolha de Severino Cavalcanti (PP) para a Presidência da Câmara dos Deputados em 2005 era para ser apenas uma palhaçada, uma brincadeira de mau gosto. Mas Severino se tornou o terceiro na ordem de sucessão presidencial. E justamente num momento em que a permanência de Lula no comando da República estava ameaçada “como nunca antes na história deste país”.

Não podendo copiar a virtude dos colegas, Severino se igualou no vício. Pego em flagrante delito roendo o osso, foi suicidado, banido. Severino Cavalcanti é uma antítese. É, ao mesmo tempo, a garganta seca e o dedo polegar que trama a asfixia. Na batalha entre sertanejo e latifundiário, é Cavalcanti sem deixar de ser Severino. É a caricatura do Lulismo, essa coalizão ornitorrinca entre o grande capital e aquilo que os cientistas políticos já chamam de subproletariado.

Usar a influência de um cargo público para obter vantagens pessoais é uma prática condenável. Aceitar propina e mimos de lobista também o é. A referência a Severino foi feita para lembrar que, no Senado, Renan Calheiros (PMDB) teve atuação semelhante e foi absolvido. Primeiro, pelo corporativismo. Mais tarde, pelos cativos.

Tiririca é palhaço. E, como bom palhaço, coloca o interlocutor em contato com aquela ingenuidade que adormece quando a malícia desperta. Entre os futuros eleitores, o palhaço é unanimidade. “Eu vou votar no Tililica.” Essa manifestação espontânea partiu de crianças que acompanharam seus pais no dia da votação.

No último programa eleitoral televisivo, Tiririca usou de refinada ironia para politizar o eleitorado e provocar adversários e aliados. Apresentou supostos pai e mãe. Com indumentária de palhaço, reagiam aos estímulos do filho, sorrindo e pedindo votos. “Pede voto pra mim, pai! Pede voto pra mim, mãe! Ri, pai! Ri, mãe!”, dizia ele. Era uma sátira ao estereótipo da família perfeita, chefiada por líderes de reputação ilibada – dispostos a cuidar da coisa pública com o mesmo carinho.

O “abestado” ainda não provou que sabe ler e escrever, mas demonstrou que sabe pensar. Ainda que sua campanha tenha suscitado o elogio à ignorância, conseguiu pregar o voto contra discursos abstratos e posturas cênicas. No entanto, é preciso adverti-lo de que o alvo do deboche não pode nunca ser as instituições, mas aqueles que as enfraquecem e desonram. Se o bom senso permitir, Tiririca chegará ao Parlamento – carregando o fardo pesado da desconfiança. Mais do que aos outros, dele será cobrada uma postura impecável. Afinal, a tribuna não é picadeiro.