quarta-feira

Topografia do esquecimento

Por Jorge Américo
Passada a crise esquizofrênica que inflama os discursos eleitoreiros, a vida voltou ao normal. Até mesmo em Itaquaquecetuba, uma das cidades mais pobres da microrregião do Alto Tietê, na Grande São Paulo. Durante a corrida eleitoral, foi desenvolvida uma reportagem que não resistiria às hostilidades do debate político pós-moderno. Não foi publicada. Vez ou outra, nossas raízes coloniais saltam à terra para lembrar que o silêncio é uma tática de sobrevivência.

Muito longe das campanhas milionárias da capital paulista, há espaços de poder sendo disputados com a mesma voracidade. O embate entre o “sinhozinho com cara de bom-menino” e a “madame com olhar social”, além de ascensão política (com pretensões planaltianas), poderia garantir o poder de gerenciar um orçamento de R$ 29 bilhões. Essa disputa se repetiu até mesmo numa cidade que, apesar dos seus quase quatro séculos e meio de fundação, ainda não possui uma sala de cinema. Lá, cinco candidatos se prontificaram a melhorar as condições de vida de 350 mil pessoas, dispondo de R$ 257 milhões anuais.

Nos discursos de campanha em Itaquaquecetuba, apenas um candidato (que obteve pouco mais de mil votos no pleito) falou em acabar com o monopólio do transporte público na cidade. A concessionária, apelidada de Viação Poeirinha, é responsável por interligar os mais de 400 bairros a um custo de R$ 2,30 por passageiro. Embarcando no centro da cidade, após quarenta minutos de viagem, é possível chegar ao bairro Louzada. Esse trajeto foi feito no domingo que antecedeu o primeiro turno das eleições municipais.

A topografia do Louzada lembra a montanha russa de um parque de diversões. O ônibus sobe e despenca ladeira abaixo centenas de vezes. Há uma curva a cada 200 metros. E dezenas de habitações beirando cada curva. Caso falte freio, o ônibus pode acabar com o sono de muita gente. Ou fazer com que alguém jamais desperte do sono. O bairro está localizado numa zona considerada urbana. Não há tratamento de esgoto. A atividade econômica é limitada. Apenas um e outro boteco. Daqueles que vendem pinga, farinha de mandioca, leite em pó, caixa de fósforos, margarina, sabonete, aspirina e botijão de gás.

A estrada principal é estreita, sem acostamento e sem calçada para pedestre. Quem não pode pagar R$ 2,30, precisa arriscar a vida desviando de automóveis, bicicletas, cavalos, carroças e caminhões. Há um tráfego enorme de caminhões na região. Um cheiro desagradável torna o ar rarefeito. É o gás metano liberado pelo lixo orgânico que apodrece no aterro sanitário, conhecido como Lixão do Marengo. O chorume, substância cancerígena, escorre pelas canaletas que levam a um reservatório a céu aberto.

Todos os dias, 800 toneladas de lixo produzidas nas cidades da região são despejadas no aterro. O prefeito, reeleito com 60% dos votos válidos, acaba de vetar o projeto de lei que proibiria os municípios vizinhos de despejarem lixo ali. O projeto havia sido aprovado por unanimidade no mês de setembro. Agora, os vereadores – a maioria deles reeleitos – voltaram atrás e referendaram o veto do prefeito. Esta foi a segunda derrota do povo após a apuração das votações. A primeira foi o resultado das eleições.

A Associação dos Municípios do Alto Tietê (AMAT), da qual Itaquaquecetuba faz parte, finge tentar resolver o problema do lixo de maneira coletiva. Apesar de produzirem a maior parte dos resíduos domésticos, as cidades mais ricas se recusam a pensar alternativas menos agressivas ao meio ambiente. A disputa pelas verbas dos governos estadual e federal é a única discussão que demanda energia e coragem por parte dos prefeitos da região. Recentemente, não faltaram candidatos para receber uma unidade da Fatec (Faculdade de Tecnologia). A construção de um possível aeroporto (nos moldes de Congonhas) é a nova onda megalomaníaca.

Sob a linha pontilhada do Trópico de Capricórnio, o Louzada é um arquipélago. A paisagem vai se alternando constantemente. Ora uma ilhota de Mata Atlântica, ainda virgem. Ora uma ilhota de pobreza, com casinhas que se equilibram à força de milagre na encosta dos barrancos. A vida selvagem e a vida severa coexistem dentro da mesma nuvem de poeira, que só cessa quando a chuva transforma tudo em lama.

Em determinado ponto do trajeto está armado o cenário para tragédias iminentes. As duas metades do Louzada são ligadas por uma ponte construída sobre a Rodovia Ayrton Senna. Nas laterais, as grades de proteção estão posicionadas apenas nas faixas que cobrem as pistas lá embaixo. Os trechos da ponte que correspondem aos canteiros da rodovia estão totalmente desprotegidos. Apenas uma mureta de 1 metro de altura tenta conter a queda de alguém que tenha ficado desiludido com a vida. Ou que sofra de vertigem. Ou que tenha bebido além do recomendável. Pode-se morrer à vontade, desde que não se atrapalhe o tráfego de automóveis.

O sistema educacional teve pouca evolução desde quando o padre jesuíta José de Anchieta resolveu mandar erguer uma aldeia às margens do Rio Tietê, na vizinhança do Colégio São Paulo de Piratininga. De acordo com o Ministério da Educação, das 11 escolas de ensino fundamental com as notas mais baixas no Alto Tietê, oito são de Itaquaquecetuba. Inclusive a última colocada, que obteve 2,2 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Os milhões de kilowatts de energia elétrica transportados pelo cabeamento aéreo da Furnas estão só de passagem pelo Louzada. Após as 18 horas, as ruas mal-iluminadas são um convite ao confinamento dentro de casa. Quase não se ouvem ruídos. No entanto, um estampido extravagante de escapamento quebra o silêncio. Dois casais de namorados se equilibram na mesma motocicleta, que estaciona onde há um foco de luz. As meninas se despedem e entram numa viela. Os rapazes prometem passar para pegá-las novamente no dia seguinte e desaparecem no breu.

O ponto final do ônibus fica exatamente no fim da estrada. Para além dali, só uma trilha de mato pisado que se esconde atrás de um morro. Do lado de lá, já é território de Mogi das Cruzes, o vizinho com o maior PIB da região. O motorista faz um enorme malabarismo para colocar o veículo em posição contrária e retornar ao centro da cidade. Não há abrigo no ponto de ônibus. Apenas uma estaca pintada de amarelo serve de sinalização.

Aos domingos e feriados, o intervalo médio entre um veículo e outro costuma ser de até 1h20, sem horário fixo. Na parte mais alta do bairro, existem paradas com coberturas. Numa delas, Seo Zé teme perder o horário do trabalho. Além do ônibus, precisa viajar por mais uma hora de trem até a capital. “Estou há cinco anos e três meses trabalhando à noite na mesma empresa. Nunca faltei, mesmo sendo obrigado a ir nos sábados, domingos e feriados. Pensei que fosse descansar quando me aposentasse, mas quando vi as coisas faltarem em casa tive que voltar para o batente. A gente acaba não aproveitando nada da vida. Vivemos só para trabalhar. Um dia cansa.”

A exploração de pessoas como o Seo Zé alimentou o sistema econômico que agora está em declínio por não ter mais para aonde crescer. No dia em que completou 30 anos de casamento, não pôde dormir com a esposa. Teve de trabalhar. Talvez não viva para desfrutar das riquezas que ajuda a produzir. A conjuntura político-econômica indica que o quadro permanecerá inalterado. Cerca de 70% dos brasileiros estão satisfeitos com os rumos que estão sendo dados ao país. A eficiência dos programas de combate à pobreza se apresenta como inquestionável. Enquanto isso, Seo Zé se pergunta por que precisa trabalhar tanto.

6 comentários:

Projeto Educação Alimentar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Projeto Educação Alimentar disse...

Pra começar tá bão.

Fala até do gás metano, do veto do safado lá... Me parece que o trabalho do ambientalista é difícil.
He he he

Mas não esqueço do Allan por ter dito que "tamém temos nosso lirismo".

Adaptou a linguagem ao nível dos taquaquecetubaianos... Bota mais aqui que eles vão começar ler!

Até mais.

João disse...

Denúncia, indignação, informação...

Se tivesse uns bumbos ecoando e umas guitarras arranhando lembrava Chico Science, "A lama chega até a bera da canela, o mangue tá afundando e não nos dá mais trela"...

Eloá disse...

Muito bom...no momento não consigo palavras para tecer um comentário descente...
Sempre me surpreendo com vc.
Parabéns...

Dois Palitos disse...

"A vida selvagem e a vida severa coexistem dentro da mesma nuvem de poeira, que só cessa quando a chuva transforma tudo em lama."

É parceiro, isso é só pra quem sabe o que pega hein!!!!

Parabéns mano velho, belo texto.

┈━═☆ Ðяikα™ disse...

s/cOmentáriOs sObre a situação em Itaquá...existem lugares mtO + piOres q lOuzada

Parabéns!!!!!!
textO maravilhOsO