domingo

Cinderelo


Jorge Américo
 
O futebol é a nossa alegria mais disfarçada, nossa paixão mais reprimida. É o amálgama que une os novos bilionários e a nova classe média (com seus R$ 300 mensais) “num só rebanho de condenados”. Os estádios de futebol são verdadeiros laboratórios antropológicos, onde estratos sociais de pólos opostos estão separados apenas pela frágil cortina de vidro dos camarotes.

É impossível passar indiferente diante do novo estádio do Corinthians, cemitério místico onde sepultaremos nossas amarguras. Os mais prudentes disfarçam o espanto, temendo render-se à “força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Os desavisados ignoram que pertinho dali centenas de famílias serão expulsas para dar viabilidade à Copa do Mundo. Depois, passada a euforia das festividades, milhões de trabalhadores deixarão de comprar o leite das crianças e a mistura da marmita do mês inteiro para ver de perto o time do coração.

As implicações jurídicas, políticas, ideológicas, morais, éticas e culturais que envolvem o julgamento do “mensalão” fizeram o Supremo Tribunal Federal (STF) recuperar o falso glamour sustentado há mais de um século. Ainda assim, o seleto clube que reúne os 11 iluminados da magistratura continua perdendo em importância para os 11 titulares da Seleção Brasileira.

A nós, nada fará sentido enquanto não convencermos o mundo inteiro de que o título de maior jogador de futebol de todos os tempos não está em disputa. Uns querem que Messi seja maior que Pelé. Outros sabem que ele não pode ser. Pelé é o Cisne Negro. Bailarino que pendurou as sapatilhas para calçar chuteiras. Por causa de Pelé, o futebol é a oitava arte. Seja pela linguagem universal; seja pela estética; seja pela poética; seja pelo jeito peculiar de falar aos corações.

Poeta da bola, recitava gols. Driblava certo por linhas tortas para confundir os adversários. E continua confundindo até hoje. Sobretudo quando o assunto é racismo. Neste quesito, Pelé tem foro privilegiado em qualquer tribunal moral. Para ele, não há maior ultraje que xingar a mãe de alguém. Pelé ousou ser rei num país onde a cor da pele faz toda a diferença. Precisou ser condecorado em terras estrangeiras para que o resto do mundo soubesse que existiam negros no Brasil e que a televisão, o cinema e as revistas nunca refletiram a nossa diversidade.

Sem oportunidade de testar as habilidades intelectuais numa universidade, Pelé improvisou e usou a cabeça para fazer gols. Longe dos laboratórios de física, passou a vida zombando da Teoria Gravitacional de Newton, com seus saltos espetaculares. Pelé sempre sabia o tempo da bola, demonstrando que o tempo não é tão relativo como Einstein quis que acreditássemos. Uma sequência de cálculos matemáticos precisos, um impulso explosivo, um desvio milimétrico de cabeça e a bola dormia no fundo da rede. Invariavelmente, num cantinho onde o guarda-metas não podia alcançar.

Aos que insistem nas comparações, é importante atentar que Pelé está no primeiro degrau. O segundo degrau ninguém atingiu. No terceiro estão aqueles aos quais se convencionou chamar de gênios. O maior feito desses foi conquistar pelo menos uma edição da Copa do Mundo, tendo desempenhado papel determinante em todas as partidas.

Na era das celebridades, com um penteado exótico, um pouquinho de marra e uma boa agência de marketing, qualquer jogador mediano pode ser craque. Quando os grandes boleiros da atualidade desfilam preguiçosos sobre o gramado aveludado com suas chuteiras reluzentes, lembro de um tempo em que se jogava por amor ou por falta de oportunidades. Muitos nem sonhavam em fazer fortuna correndo atrás duma bola. Era só a expectativa de fazer cinco refeições ao dia e não ter mais que dormir embaixo de goteira.

Quando chegou minha vez de cavar uma oportunidade, fui barrado na primeira peneira por motivo banal. Lembro do treinador dizendo: “Para fazer teste aqui, só com chuteira. Senão, alguém pode dar um pisão e machucar teu pé”. A peneira era o vestibular da bola.

O sonho acabou, mas a paixão sobreviveu. Passei anos correndo contra o tempo, enquanto a idade de trabalhar não chegava. Só parava de jogar quando anoitecia porque no Campo do Sapo não tinha iluminação. Nas tardes mais quentes, ficava agourando os caminhões de Coca-Cola. Torcia para que um deles capotasse ali perto para a gente poder se refrescar. Ignorava que o motorista e seu ajudante pudessem morrer e que as garrafas tinham dono, como tudo que existe.

O futebol é a única atividade humana na qual a humildade é virtude opcional. Humilhar o adversário e deixá-lo prostrado diante dos pés de quem conduz a bola é uma espécie de licença poética para ser soberbo. Contudo, para quem nasceu ou cresceu nos anos 1980, não era preciso ser bom driblador para humilhar alguém. Bastava ter um Kichute. E esse foi meu segundo alumbramento (o primeiro foi uma moça cuja saia sofrera graciosa derrota numa peleja com o vento).

Eram tempos de vacas magras para minha família e para o País. Passagem dos anos 1980 para os 90. Já naquele tempo conhecia o preço de todos os itens da cesta básica e nunca ousei pedir qualquer presente que fosse. Quando a esperança ameaçava me sorrir, o segundo boleto atrasado do aluguel chegava na caixa do correio. Com o tempo, a obsessão ia se convertendo num suave e solene desejo. Até que um vizinho bateu no portão. Zelador em um prédio de luxo, ele sempre ganhava objetos usados pelos serviços extras. Como ganhara dois pares de Kichute no último bico e só tinha um adolescente em casa, decidiu dividir com quem tinha mais filhos.

Até então, ninguém conhecia o tamanho do meu anseio. Assim, decidiu-se fazer um jogo de sorte: o Kichute ficaria com quem melhor calçasse. Éramos quatro irmãos, com quatro formatos de pés: comprido e achatado; comprido e fino; curto e achatado; e curto e fino. Dependendo da flexibilidade do material e de alguma persistência, um pé curto e achatado se ajusta em um calçado comprido e fino – e vice-versa. É certo que, às vezes, é preciso saber bloquear a dor e sorrir como quem pisa em plumas.

Meus pés eram curtos e achatados. Tinha chances dobradas, mas preferi ser o último a experimentar. Foram os três minutos mais longos de que tenho recordação. Depois de séculos infindos, a angústia foi compensada com um “é teu!”. No momento, nem dei conta da frustração dos meus irmãos, que certamente queriam tanto quanto eu. Imagino que Paulinho da Viola tenha concebido “Pecado Capital” numa situação parecida, ao perceber que “quando o jeito é se virar / cada um trata de si / irmão desconhece irmão”.

O Kichute não era um calçado. Era um Kichute. Servia para ir à escola, jogar bola, empinar pipa, usar em casa na falta de chinelo, correr na rua, subir em árvore, andar à toa, ir à missa no domingo. Servia, também, de travesseiro quando se deitava na grama de barriga para o ar em noites de fadiga. Tinha o formato de chuteira e era feito de tecido rústico e borracha. Possuía oito travas na sola e um cadarço enorme, com o qual se davam duas ou três voltas na canela – dependendo da grossura da canela – antes de amarrar. Éramos inseparáveis eu, meu Kichute e o calção xadrez remendado nos fundos.

A Alpargatas é a mãe do Kichute. Viveu o seu auge no ano de 1978, quando foram vendidos 9,7 milhões de pares somente no Brasil. A proeza se repetiu em 1985. Nos anos 90 sucumbiu diante da abertura dos portos e da invasão estrangeira e perdeu mercado para o All Star. Foi, inclusive, essa conjuntura que fez um garoto rico abrir mão de um Kichute em bom estado. E a caridade de um zelador fê-lo chegar até um garoto pobre. Desde então, o All Star reinou soberano no gosto popular até a marca ser adquirida pela Nike e chegar a custar ¼ de salário mínimo.

Imaginava que usando o calçado dos sonhos poderia ser popular e conquistar muitas garotas. Mas àquela época o vídeo game Atari já fazia a cabeça da moçada. Mesmo em cima de um Kichute, bem engraxado e devidamente amarrado na canela, eu era só mais um por entre a turba – feito Bandeira na terça-feira gorda. Pisava, porém, com solenidade.

Tiririca, Vossa Excelência

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Daniel das Neves

(*Publicado no Le Monde Diplomatique)

O palhaço
É só um homem amargurado
Que pinta a cara
Para esconder a tristeza.
O poeta é um palhaço.

O que há de mais escandaloso na polêmica envolvendo Tiririca não é o fato de um cidadão ser eleito sob suspeita de ser analfabeto. A tragédia que nos diminui e envergonha como nação é a existência de analfabetos. Há 14 milhões de brasileiros nessa condição. No Três de Outubro, numa seção de justificativa para a abstenção de votos, depois de preenchida a ficha pelo mesário, um garoto de 18 anos de idade sacou um papel amarrotado do bolso. Era o seu nome, escrito a lápis. Não sabendo escrever, desenhou letra por letra – conforme o original – no espaço reservado para a assinatura.

Na seqüência, outros três jovens repetiram o procedimento. O mais velho tinha 22. Apenas. Ambos saíram da Bahia e justificavam a ausência em São Paulo, ex-Terra das Oportunidades. Na mesma mesa, uma dezena de pessoas passou pelo constrangimento de ter que rubricar o formulário com a marca da digital. É contra essa realidade que as vozes do inconformismo devem se articular.

O Brasil é uma democracia representativa e Tiririca tem o apoio de, pelo menos, 1.353.820 brasileiros. Se comprovado que o deputado federal eleito com o maior número de votos não estava habilitado para disputar um cargo eletivo, também ficará provado que a Justiça Eleitoral não está habilitada para conduzir o processo. Aliás, estamos diante de um paradoxo constitucional? O voto de um analfabeto é muito bem-vindo. O mandato é inadmissível. Cassa-se preventivamente os direitos políticos de quem não teve respeitado o direito de freqüentar escola.

O eleitorado de Tiririca foi subestimado. Chamada de protesto burro, a opção por um artista notável poderia ajudar a recolocar em cena políticos em descrédito. Seu correligionário Waldemar Costa Neto (PR) seria um dos beneficiários, mas não foi preciso. Os votos inteligentes foram suficientes para lhe garantir mais um mandato na Câmara Federal. No mais, se a distribuição de votos pelo quociente eleitoral ajuda a equilibrar a correlação de forças no Legislativo, não há razões para se rechaçar os contemplados. Caso contrário, evoquemos uma Reforma Política!

A reação contra Tiririca nos remete a um passado não muito distante, que revela certa incoerência da opinião pública. A escolha de Severino Cavalcanti (PP) para a Presidência da Câmara dos Deputados em 2005 era para ser apenas uma palhaçada, uma brincadeira de mau gosto. Mas Severino se tornou o terceiro na ordem de sucessão presidencial. E justamente num momento em que a permanência de Lula no comando da República estava ameaçada “como nunca antes na história deste país”.

Não podendo copiar a virtude dos colegas, Severino se igualou no vício. Pego em flagrante delito roendo o osso, foi suicidado, banido. Severino Cavalcanti é uma antítese. É, ao mesmo tempo, a garganta seca e o dedo polegar que trama a asfixia. Na batalha entre sertanejo e latifundiário, é Cavalcanti sem deixar de ser Severino. É a caricatura do Lulismo, essa coalizão ornitorrinca entre o grande capital e aquilo que os cientistas políticos já chamam de subproletariado.

Usar a influência de um cargo público para obter vantagens pessoais é uma prática condenável. Aceitar propina e mimos de lobista também o é. A referência a Severino foi feita para lembrar que, no Senado, Renan Calheiros (PMDB) teve atuação semelhante e foi absolvido. Primeiro, pelo corporativismo. Mais tarde, pelos cativos.

Tiririca é palhaço. E, como bom palhaço, coloca o interlocutor em contato com aquela ingenuidade que adormece quando a malícia desperta. Entre os futuros eleitores, o palhaço é unanimidade. “Eu vou votar no Tililica.” Essa manifestação espontânea partiu de crianças que acompanharam seus pais no dia da votação.

No último programa eleitoral televisivo, Tiririca usou de refinada ironia para politizar o eleitorado e provocar adversários e aliados. Apresentou supostos pai e mãe. Com indumentária de palhaço, reagiam aos estímulos do filho, sorrindo e pedindo votos. “Pede voto pra mim, pai! Pede voto pra mim, mãe! Ri, pai! Ri, mãe!”, dizia ele. Era uma sátira ao estereótipo da família perfeita, chefiada por líderes de reputação ilibada – dispostos a cuidar da coisa pública com o mesmo carinho.

O “abestado” ainda não provou que sabe ler e escrever, mas demonstrou que sabe pensar. Ainda que sua campanha tenha suscitado o elogio à ignorância, conseguiu pregar o voto contra discursos abstratos e posturas cênicas. No entanto, é preciso adverti-lo de que o alvo do deboche não pode nunca ser as instituições, mas aqueles que as enfraquecem e desonram. Se o bom senso permitir, Tiririca chegará ao Parlamento – carregando o fardo pesado da desconfiança. Mais do que aos outros, dele será cobrada uma postura impecável. Afinal, a tribuna não é picadeiro.

sexta-feira

13 de Maio: Aula pública no antigo mercado de escravos de SP

Por Cleiton W. Borges e Jorge Américo
(Publicado no portal do Brasil de Fato )


Neste 13 de maio, aniversário de 121 anos da abolição formal da escravidão no Brasil, entidades do movimento negro, movimentos sociais, sindicatos e organizações culturais realizaram uma aula pública no Largo da Memória, no centro de são Paulo. O local foi escolhido porque nessa ladeira se localizava o antigo Mercado de Escravos de São Paulo, cujo barracão estava instalado onde foi construída a Estação Anhangabaú do Metrô.

A aula teve início às 18 horas. Com o tema “Abolição Inacabada: a história que você não sabe”, o professor, jornalista e membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro da Universidade São Paulo (USP) Dennis de Oliveira apresentou aspectos políticos, econômicos e sociais da realidade da população negra diante dos desafios da crise econômica. Fez, também, um resgate dos principais fatos históricos que determinaram as condições de vida atuais dos negros.

"Só a luta organizada do povo dará condições para enfrentar as situações de discriminação e racismo. Diante da ofensiva dos meios de comunicação de massa contra ações afirmativas, cresce a necessidade de atos de protesto como este, do povo ir para as ruas se manifestar", recomendou Oliveira.

Na abertura e encerramento do ato foram realizadas diversas intervenções culturais, entre apresentações teatrais, recitais de poesia, Hip Hop e capoeira. Em sintonia com a aula pública, os movimentos organizadores do ato apresentaram uma pauta política de reivindicações. Entre elas, a aprovação da Lei de Cotas para negros nas universidades públicas estaduais, a transformação do dia 20 de novembro em feriado estadual, a valorização e o respeito às mulheres trabalhadoras negras, a alteração do nome do Metrô Anhangabaú para “Anhangabaú-Zumbi dos Palmares” e a retirada imediata das tropas brasileiras do Haiti.

A carta redigida pelos movimentos revela que, “segundo o Ipea, negras/os ganham menos, trabalham mais e em piores ocupações. São a maior parte entre os sem carteira assinada e são a maioria em serviços domésticos, agricultura e construção civil. Incluem-se mais cedo no mercado de trabalho e saem mais tarde. Crianças negras são as maiores vítimas do trabalho infantil. Mulheres negras são as que mais sofrem com a violência doméstica e sexual e a juventude negra continua sendo alvo preferencial das polícias militares e civis.”

“Essa intervenção que os movimentos fazem neste dia e neste local tão simbólicos para o nosso contexto histórico deve ser assimilada por todos os trabalhadores, pois a luta contra o racismo não anula a luta contra o capitalismo, o machismo e todas as formas de discriminação” disse Nadia Tomé, militante da Uneafro, se dirigindo à multidão que se amontoava na estação do Metrô depois de mais um dia de trabalho.

O ato foi organizado pela Uneafro Brasil, Circulo Palmarino, Assembléia Popular: Mutirão por um novo Brasil, Consulta Popular, MST, Contraponto, Rede Emancipa, Sujeito Coletivo, Grupo de Hip Hop E.I.P, Grupo de Hip Hop Anexo Verbal, União dos Estudantes de Rio Grande da Serra, União Municipal dos Estudantes de Poá, Conlutas, Intersindical, C.A. de Direito da Universidade São Francisco e MAB.

quarta-feira

Topografia do esquecimento

Por Jorge Américo
Passada a crise esquizofrênica que inflama os discursos eleitoreiros, a vida voltou ao normal. Até mesmo em Itaquaquecetuba, uma das cidades mais pobres da microrregião do Alto Tietê, na Grande São Paulo. Durante a corrida eleitoral, foi desenvolvida uma reportagem que não resistiria às hostilidades do debate político pós-moderno. Não foi publicada. Vez ou outra, nossas raízes coloniais saltam à terra para lembrar que o silêncio é uma tática de sobrevivência.

Muito longe das campanhas milionárias da capital paulista, há espaços de poder sendo disputados com a mesma voracidade. O embate entre o “sinhozinho com cara de bom-menino” e a “madame com olhar social”, além de ascensão política (com pretensões planaltianas), poderia garantir o poder de gerenciar um orçamento de R$ 29 bilhões. Essa disputa se repetiu até mesmo numa cidade que, apesar dos seus quase quatro séculos e meio de fundação, ainda não possui uma sala de cinema. Lá, cinco candidatos se prontificaram a melhorar as condições de vida de 350 mil pessoas, dispondo de R$ 257 milhões anuais.

Nos discursos de campanha em Itaquaquecetuba, apenas um candidato (que obteve pouco mais de mil votos no pleito) falou em acabar com o monopólio do transporte público na cidade. A concessionária, apelidada de Viação Poeirinha, é responsável por interligar os mais de 400 bairros a um custo de R$ 2,30 por passageiro. Embarcando no centro da cidade, após quarenta minutos de viagem, é possível chegar ao bairro Louzada. Esse trajeto foi feito no domingo que antecedeu o primeiro turno das eleições municipais.

A topografia do Louzada lembra a montanha russa de um parque de diversões. O ônibus sobe e despenca ladeira abaixo centenas de vezes. Há uma curva a cada 200 metros. E dezenas de habitações beirando cada curva. Caso falte freio, o ônibus pode acabar com o sono de muita gente. Ou fazer com que alguém jamais desperte do sono. O bairro está localizado numa zona considerada urbana. Não há tratamento de esgoto. A atividade econômica é limitada. Apenas um e outro boteco. Daqueles que vendem pinga, farinha de mandioca, leite em pó, caixa de fósforos, margarina, sabonete, aspirina e botijão de gás.

A estrada principal é estreita, sem acostamento e sem calçada para pedestre. Quem não pode pagar R$ 2,30, precisa arriscar a vida desviando de automóveis, bicicletas, cavalos, carroças e caminhões. Há um tráfego enorme de caminhões na região. Um cheiro desagradável torna o ar rarefeito. É o gás metano liberado pelo lixo orgânico que apodrece no aterro sanitário, conhecido como Lixão do Marengo. O chorume, substância cancerígena, escorre pelas canaletas que levam a um reservatório a céu aberto.

Todos os dias, 800 toneladas de lixo produzidas nas cidades da região são despejadas no aterro. O prefeito, reeleito com 60% dos votos válidos, acaba de vetar o projeto de lei que proibiria os municípios vizinhos de despejarem lixo ali. O projeto havia sido aprovado por unanimidade no mês de setembro. Agora, os vereadores – a maioria deles reeleitos – voltaram atrás e referendaram o veto do prefeito. Esta foi a segunda derrota do povo após a apuração das votações. A primeira foi o resultado das eleições.

A Associação dos Municípios do Alto Tietê (AMAT), da qual Itaquaquecetuba faz parte, finge tentar resolver o problema do lixo de maneira coletiva. Apesar de produzirem a maior parte dos resíduos domésticos, as cidades mais ricas se recusam a pensar alternativas menos agressivas ao meio ambiente. A disputa pelas verbas dos governos estadual e federal é a única discussão que demanda energia e coragem por parte dos prefeitos da região. Recentemente, não faltaram candidatos para receber uma unidade da Fatec (Faculdade de Tecnologia). A construção de um possível aeroporto (nos moldes de Congonhas) é a nova onda megalomaníaca.

Sob a linha pontilhada do Trópico de Capricórnio, o Louzada é um arquipélago. A paisagem vai se alternando constantemente. Ora uma ilhota de Mata Atlântica, ainda virgem. Ora uma ilhota de pobreza, com casinhas que se equilibram à força de milagre na encosta dos barrancos. A vida selvagem e a vida severa coexistem dentro da mesma nuvem de poeira, que só cessa quando a chuva transforma tudo em lama.

Em determinado ponto do trajeto está armado o cenário para tragédias iminentes. As duas metades do Louzada são ligadas por uma ponte construída sobre a Rodovia Ayrton Senna. Nas laterais, as grades de proteção estão posicionadas apenas nas faixas que cobrem as pistas lá embaixo. Os trechos da ponte que correspondem aos canteiros da rodovia estão totalmente desprotegidos. Apenas uma mureta de 1 metro de altura tenta conter a queda de alguém que tenha ficado desiludido com a vida. Ou que sofra de vertigem. Ou que tenha bebido além do recomendável. Pode-se morrer à vontade, desde que não se atrapalhe o tráfego de automóveis.

O sistema educacional teve pouca evolução desde quando o padre jesuíta José de Anchieta resolveu mandar erguer uma aldeia às margens do Rio Tietê, na vizinhança do Colégio São Paulo de Piratininga. De acordo com o Ministério da Educação, das 11 escolas de ensino fundamental com as notas mais baixas no Alto Tietê, oito são de Itaquaquecetuba. Inclusive a última colocada, que obteve 2,2 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Os milhões de kilowatts de energia elétrica transportados pelo cabeamento aéreo da Furnas estão só de passagem pelo Louzada. Após as 18 horas, as ruas mal-iluminadas são um convite ao confinamento dentro de casa. Quase não se ouvem ruídos. No entanto, um estampido extravagante de escapamento quebra o silêncio. Dois casais de namorados se equilibram na mesma motocicleta, que estaciona onde há um foco de luz. As meninas se despedem e entram numa viela. Os rapazes prometem passar para pegá-las novamente no dia seguinte e desaparecem no breu.

O ponto final do ônibus fica exatamente no fim da estrada. Para além dali, só uma trilha de mato pisado que se esconde atrás de um morro. Do lado de lá, já é território de Mogi das Cruzes, o vizinho com o maior PIB da região. O motorista faz um enorme malabarismo para colocar o veículo em posição contrária e retornar ao centro da cidade. Não há abrigo no ponto de ônibus. Apenas uma estaca pintada de amarelo serve de sinalização.

Aos domingos e feriados, o intervalo médio entre um veículo e outro costuma ser de até 1h20, sem horário fixo. Na parte mais alta do bairro, existem paradas com coberturas. Numa delas, Seo Zé teme perder o horário do trabalho. Além do ônibus, precisa viajar por mais uma hora de trem até a capital. “Estou há cinco anos e três meses trabalhando à noite na mesma empresa. Nunca faltei, mesmo sendo obrigado a ir nos sábados, domingos e feriados. Pensei que fosse descansar quando me aposentasse, mas quando vi as coisas faltarem em casa tive que voltar para o batente. A gente acaba não aproveitando nada da vida. Vivemos só para trabalhar. Um dia cansa.”

A exploração de pessoas como o Seo Zé alimentou o sistema econômico que agora está em declínio por não ter mais para aonde crescer. No dia em que completou 30 anos de casamento, não pôde dormir com a esposa. Teve de trabalhar. Talvez não viva para desfrutar das riquezas que ajuda a produzir. A conjuntura político-econômica indica que o quadro permanecerá inalterado. Cerca de 70% dos brasileiros estão satisfeitos com os rumos que estão sendo dados ao país. A eficiência dos programas de combate à pobreza se apresenta como inquestionável. Enquanto isso, Seo Zé se pergunta por que precisa trabalhar tanto.